Tentei fugir, mas “onde eu ia eu tava”

Por Maria Carolina Freire

fugir

Final de ano é sempre estressante. Em outubro algumas pessoas já começam a apresentar sinais de “outubrite”, uma doença originada do stress, que pode piorar e passar para “novembrite” e culminar na “dezembrite”. Essas doenças são contagiosas e precisamos ficar atentos.

Oriundo desse stress vem uma vontade imensa de mudar. De ter uma vida diferente. De ser diferente.

Promessas pipocam na passagem de ano. Calcinhas de todas as cores são usadas para ajudarem a cumprir tais promessas ou realizarem desejos. Recebemos dicas, truques etc… sobre como fazer para que o ano comece melhor.

E daí você sente aquela vontade de sumir. Se pudesse fugir para bem longe você iria.

Pois é, eu, Maria Carolina, já fugi. Não apenas para uma passagem de ano, mas para uma “nova vida” que eu construiria bem longe daqui. Há uns anos peguei um voo em Guarulhos e desembarquei na Noruega. Queria um lugar bem longe. Paris, Nova Iorque, etc, não resolveriam meu problema, porque tenho muitos conhecidos nesses lugares. Queria um lugar novo e lá fui eu, de mudança, desembarcar em Oslo.

Eu nunca tinha ido a Oslo na vida e, de primeira, fui de mala e cuia. Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo novo, tudo diferente, tudo de primeiro mundo, mas, “onde eu ia eu tava”.

Se eu decidia ir a um museu adivinha quem estava lá no museu comigo. Eu! Eu mesma com todas as minhas insatisfações, tristezas. E isso valia para tudo: museu, barzinho, passeio de barco.

Esses momentos “onde eu ia eu tava” serviram para me fazer entender que não existe maneira de fugir de mim mesma. O jeito seria voltar e encarar a vida de outra maneira. Coisas que posso mudar eu mudo. Coisas que não posso mudar eu aceito.

O estoicismo, pensamento filosófico iniciado no século III a.c., é um excelente aliado para isso. O primeiro livro que li sobre o estoicismo me foi dado por um alemão, meu amigo, que é psiquiatra. Ao Alexander devo minha introdução ao mundo da filosofia. Depois disso ele me direcionou mais um pouco e com o passar do tempo fui capaz de fazer minhas próprias escolhas sobre o que ler e o que pensar.

Ele me disse: “ – Pega isso e lê.”

Eu peguei e li “Manual de Epictecto”, meu primeiro livro de filosofia.

Já na introdução, Epicteto nos deixa claro o que podemos controlar e o que não podemos controlar.

“Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa – em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja ação nossa. “

Sobre o que temos sob controle, nossos pensamentos e ações, Epicteto nos aconselha:

  • A dominar nossos desejos, porque nem tudo o que desejamos é o melhor para a gente.
  • A desempenhar nossas obrigações, porque se você conseguir se lembrar de toda a sua vida definirá como momentos felizes aqueles em que você fez o que deveria ser feito.
  • A aprender a pensar com clareza. Toda vida é cheia de dificuldades e Epicteto gostaria que pensássemos assim: “Que eu possa ter serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar o que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença”.

E as coisas que não controlamos?

Não controlamos a doença em nosso corpo, o carro quando quebra, o que outras pessoas pensam sobre nós e/ou nossas posições sociais, mas controlamos o que pensamos sobre essas coisas.

William James, foi um médico, psicólogo e filósofo americano. Ele nos ensinou que nossa consciência é seletiva. Ela recebe, rejeita ou escolhe durante todo o tempo que pensa e o que determina uma opção sobre a outra tem a ver com nossa atenção e hábitos. Precisamos prestar atenção ao que estamos emitindo: fazendo, falando, etc… e precisamos prestar atenção ao que estamos recebendo.

Hábitos, segundo o dicionário, é uma mania, um costume, uma prática repetida que se torna conhecimento ou experiência. Para William James nossas virtudes são hábitos, tanto quanto nossos vícios. Portanto, para abandonar nossos vícios precisamos prestar atenção em nossos atos.

“Onde eu fui, eu estive. Onde estou, eu sou. Onde irei, eu estarei.” Desejo que essas três frases se tornem um mantra para você tanto quanto é para mim e que todos os seus momentos sejam seus melhores momentos, porque você escolheu que é para ser assim.

maria carolinaMaria Carolina é cafeicultora e proprietária do “Café da Condessa”. Exportadora, sua empresa foi uma das selecionadas no programa Design Export, da Apex. Embaixadora da RME, sempre escreve aqui suas dicas de empreendedorismo.

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