Encontro às escuras

Por Maria Carolina Freire

escuro

“Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores.”

É com essa frase que Virgínia Woolf, escritora inglesa do começo do séc. XX, começa seu livro “Mrs. Dalloway”, publicado em 1925, onde expõe um dia na vida da personagem Clarissa Dalloway e trata dos preparativos para uma festa da qual Clarissa é a anfitriã.

Mrs. Dalloway vai dar uma festa porque não gosta do silêncio. Ela é uma mulher bela e elegante, que irá receber a alta sociedade. Mrs. Dalloway representa um contexto. Sua vida, seu marido, sua posição social, sua casa, suas jóias e suas roupas são o que a transformam na mulher que aparenta. Mas quem será essa mulher quando despida, nua?

Virgínia Woolf usa uma técnica chamada “fluxo de consciência” para escrever seus romances. Essa técnica nos mostra o que a personagem está pensando. A escritora, ela mesma esquizofrênica e bipolar, passeia dentro e fora das mentes dos personagens. Nos mostra suas impressões pessoais sobre o momento e suas ideias. O consciente e o inconsciente. A realidade e o desejo. Porque sempre pensamos, mesmo que não consigamos dizer o que pensamos.E nem tudo é do jeito que parece ser.

Pascal Bruckner, escritor e filósofo francês, em seu livro “A Euforia Perpétua” analisa o nosso comportamento atual e apresenta três conceitos que impediriam a realização do nosso projeto pessoal de felicidade:

  1. Indefinição: as pessoas não sabem realmente o que querem.
  2. Apatia: as pessoas se cansam do que conseguiram.
  3. Disfarce do sofrimento: Como não conseguem alcançar o objetivo almejado, as pessoas se amarguram.

Mas se não somos tão felizes assim porque é que vemos tantas pessoas exibindo felicidade por aí? Porque, segundo Bruckner, a felicidade se tornou um objeto de status social. “A questão não é mais ser feliz, mas, sim, que os outros não sejam felizes e que se sintam, por isso, torturados”, diz Bruckner.

Como seria Mrs. Dalloway hoje em dia? Como seria sua festa? Quem ela convidaria? Postaria o jantar no Facebook? E se fosse amiga de Pascal Bruckner?

“Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores. Saiu de casa às 10:00h, convicta que voltaria antes do meio-dia. Eram 12:30h e ainda estava parada no congestionamento.

“E agora? Marquei a manicure às 14:00h. Não vai dar tempo de almoçar. Ou o almoço ou a manicure. Que droga! Será que tem alguém vendendo alguma coisa para comer? “

Se aprumou no banco do carro para procurar um vendedor e não acreditou no que seus olhos viram: Pascal Bruckner! Era ele mesmo? Quantos anos sem vê-lo. Buzinou, acenou e ele a viu. Era ele mesmo.

– Clarissa Dalloway! Que surpresa maravilhosa! – Disse Pascal Bruckner verdadeiramente surpreendido. – Você está ótima!

– Você também! – Respondeu Clarissa em voz alta, à vida, e pensou: “É por isso que sempre gostei de Pascal. Ele não pergunta “como vai?”. Sempre direto, já diz ele mesmo o que acha de nós e evitar respostas do tipo “minha sinusite está me matando”- Estou super atrasada. Vou dar uma festa hoje a noite, em casa, e exijo sua presença – disse Clarissa sorrindo.

– Irei com certeza. Que horas?

– Às 20:00hs.

O sinal ficou verde e Clarissa acelerou.

“Que engraçado encontrar Pascal. Vai ser muito divertido vê-lo mais a noite. Xiii… também convidei a Ana. E agora? Ahhh… que me importa. Já faz muito tempo que os dois namoraram. Estávamos na faculdade. Isso foi no século passado.” E riu-se.

Depois de conferir se tudo estava ok, de explicar o procedimento aos garçons, ir conferir o gelo novamente, porque não há nada mais deprimente do que um copo de uísque com uma pedra solitária, boiando, Clarissa está indo ao seu quarto para se arrumar quando dá de frente com o filho do marido. Adolescente rebelde e intransigente. “Será que ele vai ficar para a festa?” pensa Clarissa, que pergunta: – Olá, tudo bem? Veio para a festa? Mas ele não responde, vira para o lado e dá um chute no arranjo de flores que estava perto da porta. As flores voam longe e ele sai correndo, mas seu pai entra em casa a tempo de ver a cena. Começa a discussão que, ultimamente, é frequente.

“A realidade sufoca”, conclui Clarissa, que sai para se arrumar e tomar um tranquilizante se segurando para não chorar. “Não vou chorar. Sou uma rocha. É isso! Uma rocha. Não choro nem se quebrar o braço”. Entra no quarto e vai se maquiar. Pega a necessaire com as bases. Olha no espelho. As palavras são insuficientes para definir seu pensamento, seu sentimento. Quantas coisas podem acontecer em um momento. “Hoje vou usar minha melhor máscara. Acho que é por isso, por momentos assim, que existem Lancôme, Mac, Kryolan… Deve ser por isso que tantas mulheres usam Botox. Às vezes, é torturante se olhar no espelho. Precisamos de máscaras. Não deveria ter me separado do meu primeiro marido. Ao menos era o pai dos meus filhos. Não aguentava certas manias dele e agora tenho que aguentar as manias do atual marido e mais os filhos dele. Não deveria nem ter me casado. Mas hoje é minha festa e ninguém vai me entristecer, porque afinal de contas a vida é isso: humilhação, renúncia.”

A festa começou. Tudo ia sair bem. As pessoas pareciam chegar numa avalanche. Um sucesso. E eis que surge na porta de entrada Pascal Bruckner, que lhe sorri, vem ao seu encontro e diz:

– Mrs. Dalloway, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!”

maria carolinaMaria Carolina é cafeicultora e proprietária do “Café da Condessa”. Exportadora, sua empresa foi uma das selecionadas no programa Design Export, da Apex. Embaixadora da RME, sempre escreve aqui suas dicas de empreendedorismo.

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