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Mulheres na obra – Fernanda Sanino [série]

Por Camila Pinotti
 
Sabe aquela história sobre planejamento e mudança de carreira? O momento em que já não nos identificamos com os valores da empresa? Pois é, assim começa nossa 3ª história da série Mulheres na Obra, contando sobre as LumberJills* Letícia e Fernanda, que se conheceram em 2012 trabalhando com vendas numa multinacional, deixaram para trás suas experiências em turismo e hotelaria por uma nova carreira.
 
A LumberJills é uma marcenaria e tapeçaria onde desenham e fabricam cada peça, colocando a mão na massa em todas as etapas, nada ali é criado sem a participação delas. Embora boa parte da mídia as procure pelo fato de atuarem numa função tradicionalmente masculina, elas preferem deixar claro que nunca o fizeram por ato político ou qualquer ligação ao movimento feminista.
 
A escolha por montarem uma marcenaria aconteceu naturalmente. A Fernanda já reformava móveis da família e a Letícia fez um curso de desenho do mobiliário.
 
Mesmo assim foram tantos questionamentos que elas precisariam se posicionar.
 
Assim a Fernanda conta…
 
Entendemos que era necessário falar sobre o feminismo, mas sempre com muito cuidado, pois nosso foco é a marcenaria. Mudanças são necessárias e não queremos nos eximir, apenas optamos por abordá-las de maneira leve e tranquila.
 
Não limitamos, por exemplo, nossos colaboradores só a mulheres. Temos homens que trabalham conosco e isso não é um problema, mas no geral, temos achado as mulheres mais comprometidas com o trabalho.
 
Infelizmente passamos por experiências machistas. Já fomos desmerecidas mesmo mostrando que entendemos do assunto, apenas por sermos mulheres. Nunca sentimos isso por parte dos clientes, há até quem nos procure justamente por isso, mas sofremos essas diferenças, às vezes, com os fornecedores.
 
E isso ocorre desde formas mais sutis a casos mais graves. Até que ponto quinze homens a sós com uma mulher ameaçando trancar a porta é uma brincadeira? Ou seria um prenúncio de perigo? Seja como for, é com certeza mais fácil debater a questão do assédio do que o machismo, que se encontra arraigado em nossa cultura.
 
A área da marcenaria assim como da construção não tem só uma cultura machista como também arcaica, que ignora completamente o cenário atual onde trabalhamos com Instagram e Facebook. Existem marcenarias que se quer possuem um site!
 
Essas características mais modernas como criar parcerias, geram desconfiança em profissionais culturalmente acostumados a achar que o outro sempre quer tirar vantagem. Eles se perguntam o que mais você ganha com isso? Qual a sua vantagem em me procurar? Não entendem que a nossa preocupação é crescermos juntos. É importante poder confiar em quem está ao seu lado, principalmente quando temos de indicar um serviço. Isso é parceria. E para ela funcionar o comprometimento e a troca são importantes.
 
Quer ver um exemplo?
O ofício da marcenaria é tradicionalmente ensinado no boca a boca. Mas isso faz com que tenhamos diferentes técnicas para um mesmo trabalho. Cada um cria sua especialidade sem saber bem o por quê e em quais situações ela seria a mais adequada. É o avô que ensina para o pai, e o pai que repassa para o filho. Então, para esse filho, aquela é a única maneira correta de se fazer um trabalho.
 
No começo nos perdemos um pouco, mas quando entendemos isso também aprendemos a confiar mais em nosso trabalho, já que o questionamento nem sempre significa que estamos erradas.
 
Nós mulheres precisamos confiar mais em nossas decisões, mesmo que um homem nos diga que não sabemos o que estamos fazendo. É difícil, principalmente quando crescemos ouvindo que aquele trabalho não é pra você.
 
Precisamos separar quem quer nos ajudar daquele que é só um curioso. “É importante que a mudança do serviço não seja apenas no gênero de quem o faz, mas também por o fazerem de maneira instruída.”
 
Quando decidimos com o que trabalharíamos nos empenhamos na capacitação.
A Letícia foi a primeira a sair do emprego antigo e começou fazendo os cursos de marcenaria pela escola da Leo Madeiras, e lá soubemos dos cursos do Senai que eram mais avançados. Dentro do Senai além da marcenaria fizemos o de tapeçaria, e por fim chegamos no curso do Madeira Viva, isso tudo em 2014, antes até de abrirmos a empresa.
 
O combinado era que eu também pediria as contas no meio de 2015 e até o final do ano montaríamos a LumberJills. A verdade é que me empolguei tanto que não aguentei e em Dezembro do mesmo ano pedi demissão. Então, em janeiro de 2015 abrimos. Só que em março a Letícia descobriu que estava grávida e todo nosso planejamento mudou. Não sabíamos como seria a gravidez dela nem até quando ela poderia levar o trabalho, invertemos tudo e foi a minha vez de fazer os cursos.
 
No início enfrentamos o preconceito mesmo entre nossos familiares. Eles enxergavam a marcenaria como um serviço inferior e não entendiam que era uma escolha. Hoje eles aceitam, mas no começo foi complicado.
 
Claro que existem os prós e contras. No emprego corporativo a estabilidade financeira é maior, mas abrir a LumberJills permitiu que a Letícia ficasse mais tempo com o bebê, trouxe flexibilidade nos horários. Ela pôde trabalhar de casa, se manteve com uma presença na empresa sem abrir mão da presença com a filha.
 
Não sei dizer se tendo um homem como sócio esse momento repercutiria na empresa.
Se o planejamento seria revisado por essa condição. Acho que a sensibilidade feminina nesse caso ajudou. “Em qualquer relação humana acho que a mulher se apresenta de forma mais sensível e mais intuitiva.”
 
Nesse sentido o papel da mulher tem sido ingrato. Somos cobradas se saímos mais cedo do trabalho para buscar um filho. E também somos malvistas se priorizamos a carreira, independente de ter um parceiro ou parceira que nos dê esse suporte. Cada mãe tem uma maneira de ser por que as pessoas são diferentes, e deveríamos respeitar isso.
 
Temos longas discussões pela frente, sem perceber perpetuamos pensamentos e comportamentos machistas. Todos estamos expostos aos estereótipos, por isso é importante não julgar.
 
*LumberJills – palavra em inglês usada para definir o feminino da palavra Lumberjack (lenhador)
** A Leo Madeiras possui alguns cursos na área de marcenaria. O valor arrecadado desses cursos é convertido para manter uma escola assistencial em comunidades carentes.

 
Relembrando o convite:
E se você é mulher e se identificou me mande um e-mail, quero te conhecer! (camilapinotti.arquitetura@gmail.com)

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