Juntos no amor e no trabalho

casal

Como casais se comportam quando compartilham vida pessoal e profissional, brigando e amando, lutando e torcendo um pelo outro
 
T Revista, do jornal A Tribuna de Santos, por Joyce Moysés
 

Amor e negócios são duas forças que podem, sim, estar em sintonia. A união de talentos tem tudo para ser proveitosa, nesse caso, porque há uma razão poderosa chamada confiança. Afinal, se você não pode sentir isso pela pessoa com quem divide a vida e a cama, vai sentir por quem? O amadurecimento e o crescimento material de casais trabalhando juntos, tanto como funcionários quanto empreendendo, têm aumentado nos últimos anos, pois
a crise brasileira vem incentivando os dois a juntarem forças em prol de objetivos comuns, como ter mais qualidade
de vida, conviver mais com a família…
 

Os advogados Glauber Figueira e Yara Henquires que o digam. Cada um trabalhava na sua área. Ele tinha o seu
escritório e ela atuava no de terceiros. A ideia de abrir a Caverna do Dragão surgiu com a chegada da primeira filha. “Não havia nenhuma loja especializada em jogos modernos na Baixada Santista. Por isso, decidimos arriscar com esse negócio próprio”, conta ela.
 

Quando um sóciorido cai bem
 

Eis um termo atual, utilizado para definir a combinação de sócio e marido, quando a mulher toca um negócio (ou mais) junto com a pessoa com quem se relaciona amorosamente, conforme explica Heloisa Motoki, fundadora da
Quali Contábil, consultora no site Fórum Contábeis e influenciadora da Rede Mulher Empreendedora (RME). Saiba que essa já é a realidade de 35% das empreendedoras, segundo a pesquisa Quem São Elas, realizada em 2016 pela RME.
 

“Embora eu não faça parte dessa estatística, pois meu marido tem outro emprego, ele me ajuda nos finais de semana principalmente com atividades ligadas à manutenção do meu escritório. Além disso, por eu atender pequenas e  médias empresas, convivo diariamente com mulheres cujos negócios vão bem nesse formato. E elas têm minha admiração”, comenta Heloisa, que atua no mercado contábil há 19 anos e tem MBA em Controladoria.
 

Ela alerta que negócios entre casais têm risco mais alto, por comprometerem tanto o ambiente profissional quanto o familiar: “Dizem que os casamentos sofrem abalos a cada sete anos e que uma sociedade costuma fechar antes dos cinco anos. Imagine só quando juntamos os dois! A combinação sóciorido pode ser uma bomba relógio prestes a explodir”.
 

Justamente por isso, Heloisa acredita que manter a paz no relacionamento sem afetar o negócio – e vice-versa – exige um grau de civilidade para o qual muitos casais precisam se preparar melhor. Para que negócios entre casais funcionem é preciso tentar harmonizar algumas regras; e as que essa contadora já viu funcionar muito bem são estas:
1.Não misture os ambientes
 

Significa tratar os problemas de casa entre quatro paredes e resolver os do trabalho dentro da empresa. “Por mais desesperadores e urgentes que sejam, procure separar as coisas”, orienta Heloisa. Na sexta-feira à noite lembrou-se de uma pendência com cliente? Não queira levar o assunto para o jantar com a família. Coloque um alerta no celular e trate disso logo na segunda-feira de manhã, assim que entrar no escritório.
 

2.Combine as decisões entre sócios, principalmente se elas envolvem funcionários
 

Nada pior para o ambiente da empresa do que o colaborador ficar confuso, sem saber a quem seguir, ou se aproveitar da falta de comunicação entre o casal.
 

3.Cuidado com os tratamentos entre o casal no ambiente profissional!
 

Lembre-se de que o exemplo vem de cima. “Já trabalhei com um casal, mas levei meses para descobrir que eram casados. Chegavam juntos. Porém, o tratamento era igual para todos (Sr. e Sra.), independentemente da intimidade que tinham do lado de fora”, exemplifica Heloisa.
 

4.Defina as tarefas de cada um
 

No caso de o casal ter filhos, esse cuidado deve ser redobrado. É muito fácil misturar as coisas, o que só dificulta tanto a produtividade e concentração no trabalho quanto a rotina doméstica.
 

E se as coisas ficarem tensas?
 

O principal conselho de Heloisa é: pare e pense! Para que não tomem decisões de cabeça quente, como acabar com o casamento ou com a saída de um dos dois desse projeto profissional. Há brigas que são para o bem, para tirar a gente da zona de conforto e achar soluções diferentes para os problemas de sempre.
 

O problema são as acusatórias, com xingamentos, agressões verbais, gritarias… E podem ser como uma panela de pressão prestes a estourar no trabalho ou em casa, levando o relacionamento e/ou os negócios pelos ares. “Cuidado ainda com a exposição excessiva nas redes sociais. Nessas horas aparece mais gente para palpitar e jogar lenha na fogueira do que propriamente ajudar esse casal que trabalha junto”, avisa a contadora.
 

Incentivo das pesquisas

 

Uma boa notícia é que, ao contrário do que muitos imaginam, pesquisas mostram que essa proximidade no trabalho favorece o dia a dia dos enamorados. “Há vários tipos de combinação: temos os funcionários de uma mesma empresa, os que mantêm uma relação de subordinação (ele é chefe dela ou vice-versa), os que enxergam uma oportunidade e transformam em negócio… E há prós e contras em cada uma das situações, como com tudo na vida”, pondera a psicóloga Marina Simas de Lima, terapeuta de casal e família e cofundadora do Instituto do Casal.
 

Um estudo feito pela Universidade do Estado de Utah em parceria com a Universidade Baylor dá um incentivo extra
ao constatar que esses casais são mais felizes em casa, além de mais produtivos e satisfeitos profissionalmente. O melhor é que o índice de felicidade e satisfação se mostra duas vezes maior quando têm a mesma profissão e/ou atuam na mesma empresa. Empatia é o segredo: podem compreender melhor o estresse do parceiro com o trabalho, por enfrentarem pressões similares, e podem partilhar conhecimento para ajudar a resolver problemas.
 

Um equilíbrio delicado
 

Para a empresária Katia Teixeira, o principal cuidado é não confundir os papéis. “Há ônus e bônus quando o casal trabalha junto. Porém, saber quando o interlocutor está sendo seu colega de trabalho, e não seu cônjuge, contribui para diluir possíveis mágoas. Parece fácil, mas não é. Demoramos anos para entender isso, sendo que nesse período de falta de entendimento as brigas continuavam em casa”, conta ela, que é sócia-fundadora do grupo Amazing, franquia de parques educativos indoors administrada ao lado do economista Anibal Teixeira.
 

Katia reforça: “O maior cuidado, sem dúvida, é o de evitar levar para casa as discussões geradas na empresa. Sabemos que, às vezes, é inevitável tal peripécia. Lidamos com divergências o tempo todo. Mas é aí que entra o sentimento do amor para impedir que a tensão profissional não extrapole ao ponto de minar o relacionamento”.
 

Há também vantagens
 

Segundo Katia e Anibal, são inúmeras, principalmente na divisão de tarefas e administração da agenda, falando da parte prática do processo. “Olhando pelo lado romântico, é maravilhoso alimentar sonhos conjuntos, realizá-los, curtir as vitórias, tendo como partner alguém em quem você confia piamente, alguém com quem pode dividir seus medos e decisões”, explica Katia, que é pós-graduada em Empreendedorismo e em Gestão de Pessoas e Inovação,
também idealizadora do projeto Agora Que São Elas.
 

“Como sócio e amante, enxergo que a maior vantagem é que todas as conquistas adquiridas refletem em nós mesmos. Comungamos da mesma vitória, festejamos o mesmo sucesso”, completa Anibal.
 

Blindagem amorosa
 

Certamente a experiência prática vai ensinando a cada casal como preservar o amor. “Esse é um aprendizado que não acaba nunca. Os acordos ou regrinhas básicas de convivência em prol do relacionamento aconteceram sempre que o respeito era ameaçado. Cada vez que um passava do limite com o outro, na hora da reconciliação, abordava oassunto e proponha um limite. Às vezes, o que ofende e magoa um lado passa despercebido ao parceiro. Se isso não for dito abertamente, o outro não saberá que feriu sua essência. Clareza na relação é fundamental”, ensina Katia.
 

Anibal resume as palavras da esposa em três atitudes: ouvir, respeitar e ceder. “Não só ouvir a ideia do outro, mas aceitá-la como outra possibilidade. Isso é respeito e mostra maturidade ao entender que pode ser melhor que a sua. E qual o problema de ceder em prol do bem comum? Quando isso passa a ser uma regra do jogo, preservar o amor é consequência”, anima ele, que conheceu Katia quando ambos tinham 17 anos. Ele trabalhava com o pai e ela era bailarina clássica.
 

Após quatro meses de namoro, já eram sócios numa loja de surfwear. “De lá para cá, 12 empresas fizeram parte do nosso portfólio. Vendemos várias, doamos outras e quebramos algumas. Com duas, vencemos. Acredito que a maturidade, a cumplicidade e a confiança mantiveram nosso amor intacto. Depois desse tempo todo, estamos aprendendo a trabalhar separados também, investindo em projetos paralelos (eu, de empreendedorismo feminino; e ele, de educação financeira). Às vezes, sinto falta dos pitacos dele. Então, ligo e peço uma opinião, que nem sempre coloco em prática. Faço só para senti-lo por perto”, admite Katia.
 

“Também sinto essa necessidade de trocar figurinhas e saber o que ela pensa”, endossa Anibal.
 

Conhecimento e compreensão
 

Conhecer bem seu parceiro é fundamental para conciliar carreira com vida doméstica. “Isso lhe dará maior sensibilidade para interagir”, ressalta o advogado e proprietário da loja de jogos modernos Caverna do Dragão. Sua sócia e mulher concorda que essa sensibilidade faz verificar se a outra parte está bem para discutir qualquer tópico a respeito da empresa. “Glauber e eu sentamos para definir estratégias, bolar a programação do mês e também decidir como faremos os investimentos. Como ele advoga, além de trabalhar na Caverna, temos de separar uma parte do dia para que ele possa cumprir com suas obrigações. E, além disso, ainda precisamos dedicar tempo e energia aos filhos.” 
 

O mais importante, na visão de Glauber: “Quando algo me aborrece e fico perto de perder a calma, lembro que a amo, que casei com ela, que é a mãe dos meus filhos enquanto conto até dez. Por estarmos casados, batalhamos
pelos mesmos objetivos no lado financeiro e no pessoal, e isso nos ajuda a manter o foco e a energia para buscar melhores resultados”. Yara garante que os dois se divertem na loja, seja aprendendo algum jogo, seja ensinando aos clientes, e agora ensinando os filhos.
 

Curioso que Glauber, antes de ter a loja conjunta, evitava trabalhar com Yara, por receio de desgastar a relação. “As histórias de casais que terminam o relacionamento por atuarem juntos sempre me causaram medo e ainda causam. Mas a vontade de empreender falou mais alto. Gerimos a loja com a preocupação de não atravessar o sinal nas responsabilidades que cada um assume, para não atrapalhar. E sempre que brota uma opinião divergente, sentamos e procuramos chegar a um consenso“, finaliza Yara.

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