Gestão e ética de mãos dadas

Por Gizelma Lima

ética

Os últimos acontecimentos nos cenários político e econômico mundiais têm despertado grandes preocupações e debates acerca da ética nas organizações. Nunca se debateu tanto sobre ética como hoje, principalmente aqui no Brasil. E as discussões têm sido cada vez mais calorosas, tanto dentro das universidades quanto em lugares públicos. Os espaços são diversos e têm atraído o interesse de muitos — jovens, inclusive.

Mas para se resolver a questão da ética em uma empresa, é necessário delimitar um modelo de gestão realmente capaz de comunicar sua identidade — não somente para o próprio corpo da organização, mas, sobretudo, para a sociedade.

Existe um verdadeiro arcabouço normativo a seguir para que uma empresa esteja de acordo com as normas internas e externas que regem o seu negócio — assim como existem, nas boas práticas de governança corporativa, inúmeros mecanismos e metodologias eficazes para fazer uma organização alcançar os seus objetivos com o máximo de eficiência possível.

Mas será que só isso basta? Antes da percepção da necessidade de implementação ou reestruturação de novos modelos de gestão, a organização precisa ter como base os seus valores éticos. E esses valores precisam estar devidamente alinhados com os dos colaboradores. Esse é o principal modelo de gestão de qualquer organização, na nossa visão. Se esse modelo estiver concebido entre todos, qualquer boa prática de governança encontra grandes possibilidades de sucesso.

A escolha entre uma prática e outra se dará em função dos objetivos institucionais e estratégicos da organização, que pode ser facilmente ajustado através de medidores. Contudo, é pouco provável que desvios éticos construídos ao longo de uma trajetória de vida e tidos como corretos mudem com metodologias aplicáveis.

Então nos perguntamos: mas uma má conduta não pode ser corrigida? Pode, sim, se nós a atribuirmos a um erro, para começar. Por exemplo, a inobservância de uma norma ou a má interpretação desta. A questão consiste em: qual modelo de gestão instituir para vencer essa dinâmica que induz ao erro ou a ações fraudulentas, tão comum no exercício das atividades empresariais, a exemplo dos grandes escândalos corporativos.

Consiste em constituir um modelo de gestão baseado na ética dentro das organizações como a maior ferramenta de defesa contra as práticas abusivas que inviabilizem a sobrevivência das organizações. As organizações, principalmente as com fins lucrativos, sobre as quais teço esses comentários, têm como seu maior valor o lucro.

Para isso, criam seus objetivos estratégicos e operacionais, escrevem um bom modelo de negócios, investem em tecnologia e inteligência, pesquisa, desenvolvimento e buscam os melhores profissionais do mercado, tecnicamente falando, mas não se preocupam com o perfil ético do cidadão. Isso porque, quando ela se instituiu, esse valor ficou em segundo, terceiro, quarto ou quinto plano.

Os dilemas éticos são difíceis de lidar, isso pode justificar a escala de valor decrescente que um modelo ético tem nas organizações. Algumas teorias podem auxiliar os indivíduos a lidar com problemas e dilemas éticos. Duas delas — a utilitarista e a teoria dos direitos — fornecem referências que têm influenciado a elaboração de códigos de conduta e que podem ser usadas por profissionais ao enfrentar situações eticamente desafiadoras.

A Teoria Utilitarista define ética como a “ação que promove o máximo de bem-estar para o maior número possível de pessoas”. Atividades que implicam resultados que não atendam à definição de ética ou aquelas que correspondam a meios ineficientes de alcançar tais fins são menos desejáveis.

O utilitarismo requer: a identificação do problema e das possíveis linhas de ação; a definição do impacto direto e indireto das ações sobre cada uma das partes afetadas (comumente chamadas de grupos de interesse) que podem obter vantagens a partir do resultado de ações empreendidas; avaliação da conveniência (qualidade) de cada ação; avaliação geral do máximo de bem-estar para o maior número possível de pessoas.

O utilitarismo exige que os indivíduos não advoguem ou escolham alternativas que favoreçam interesses limitados ou produzam o máximo bem-estar de maneira ineficiente. Podem existir discordâncias quanto ao impacto provável ou à eficiência relativa de ações distintas visando à consecução dos fins desejados.

Também pode haver problemas na mensuração do que é o “máximo de bem-estar” em uma circunstância especifica. Um problema com a teoria utilitarista é a hipótese implícita de que os fins justificam os meios. Infelizmente, tal enfoque pode levar a linhas desastrosas de ação, em que os responsáveis pela tomada de decisões deixam de medir ou avaliar adequadamente os possíveis custos e benefícios.

Assim sendo, os especialistas em ética dizem, em geral, que os argumentos utilitaristas devem ser moderados por algum enfoque baseado em valores, que podem ser obtidos na teoria dos direitos. A Teoria dos direitos concentra-se na “avaliação de ações com base nos direitos fundamentais das partes envolvidas”. Na hierarquia dos direitos, os de ordem superior assumem precedência em relação aos de ordem inferior.

Aqueles de ordem superior incluem o direito à vida, à autonomia e à dignidade humana. Direitos de segunda ordem incluem aqueles concedidos pelo governo, como direitos civis, legais, de propriedade e privilégios de licenciamento. Os de terceira ordem são os sociais, como o de acesso ao ensino superior, a uma boa assistência médica e à possibilidade de emprego remunerado.

Os direitos de nível mais baixo ou de quarta ordem estão relacionados aos interesses não essenciais ou gostos de uma pessoa, como de enriquecer, de jogar golfe ou de se vestir de maneira atraente. Essa teoria exige que os direitos das partes afetadas sejam considerados como restrições à tomada de decisões éticas.

Esse enfoque é mais eficaz na identificação de resultados que devem ser automaticamente eliminados, como o enfoque “Robin Hood”, ou seja, tirar dos ricos para dar pobres, ou no reconhecimento de situações com que a resposta utilitarista conflitaria, como a maioria dos valores da sociedade.

Dessa forma, um modelo de gestão que se baseie nessas duas teorias teria um maior alcance na idealização de propostas, objetivos e soluções mais concretas, sólidas, seguras e capazes de sobreviver aos devaneios econômicos, políticos e até culturais que assolam o universo corporativo. Contudo, um modelo ético que provoque mudanças culturais e estruturais deve ser construído por todos os que irão direta ou indiretamente utilizar-se e beneficiar-se dele, sob o exemplo e a condução do topo da organização.

gizelma-limaGizelma Lima é embaixadora da Rede Mulher em Sergipe, é contadora e especialista em auditoria governamental e contabilidade pública; é auditora, associada ao Instituto de Auditores Internos do Brasil – IAA AUDIBRA, consultora de gestão e professora na Universidade Federal de Sergipe.

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