Igualdade de gênero em construção

por Maitê Borges de Oliveira

Três mulheres, diferentes histórias e origens, uma missão em comum: desmistificar papeis de gênero impostos pela sociedade no meio trabalhista. Sobretudo construção civil, reformas e reparos, um meio majoritariamente masculino.

Ana Luisa Monteiro e Katherine Pavloski são sócias da M’ana – Mulher conserta para Mulher. A empresa surgiu há 6 meses e, desde então, realiza reparos e pequenas reformas domésticas, usando mão de obra feminina. Ana conta que sempre foi habituada a realizar tarefas como pintura, conserto de pias, chuveiros, torneiras, entre outras, em sua própria casa. A motivação de fundar a Mana veio a partir de um assédio que Ana sofreu de um prestador de serviços*. “Muitas de nós já passamos por alguma situação de nos sentirmos incomodadas, inseguras, desconfiadas de que estão nos enrolando e enganando. Infelizmente é uma realidade”, desabafa.

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Katherine Pavloski é uma das sócias da M’ana (Foto: divulgação)

Katherine é arquiteta formada há 4 anos e, assim como Ana, sempre soube manusear ferramentas, fazer marcenaria, além de ter estagiado em obras. Ficou sabendo da Ana no Facebook, por meio da divulgação dos serviços da Mana, e logo a procurou oferecendo parceria. “Tem um grande propósito, uma política muito bonita. Além de que toda casa precisa de manutenção, então mesmo nessa crise, a nossa empresa está conseguindo se manter muito bem”, afirma.

Erika De Angeli é fundadora da De Angeli Projetos, empreiteira que realiza trabalhos de alvenaria, reforma, pintura interna e externa, elétrica e iluminação. Desde o nascimento da empresa, há 6 anos, Erika busca mulheres para atuar nos serviços oferecidos, mas encontra dificuldade. A maioria delas enfrentam jornada dupla de trabalho – na empresa e em casa, onde a tarefa de cuidar dos filhos e do lar é delegada a mulher.

Mulheres em obras

Ana, Katherine e Erika se conheceram no Fórum Empreendedoras, evento promovido pela Rede Mulher Empreendedora. A partir de então, puderam conversar sobre a falta de representatividade feminina no meio que estão inseridas, formando o grupo “Mulheres em Obras”, que engloba mulheres do setor. “Nós víamos que éramos mulheres em uma área totalmente machista, então por que não nos ajudarmos?! A ideia [do grupo] é uma indicar a outra, uma ajudar a outra, formando uma rede”, diz Ana.

Para as mulheres da M’anas, a conexão com empreendedoras por meio da Rede foi essencial para que a empresa engatinhasse: “Antes de procurarmos a Rede [Mulher Empreendedora] não tinha nada da parte administrativa, não tinha parceiros, não tinha fornecedores, não fazia ideia de planos de negócios. Hoje, até a pessoa que fez nosso site nós conhecemos em um Café [com Empreendedoras]”.

Erika reafirma a importância da conexão entre mulheres para que elas assumam um posicionamento de cumplicidade e achem um propósito capaz de transformação de uma realidade: “Quando eu abri a De Angeli, o objetivo era dar voz às mulheres que atuavam em obras. Às vezes elas tinham dinheiro, mas eram os homens que mandavam na obra. E quando você tá lá perto delas, elas se sentem ouvidas, se sentem importantes. Isso é empoderamento”, reforça.

São elas que comandam o canteiro de obras na De Angeli (Foto: divulgação)

Durante a 42ª edição do Café com Empreendedoras, evento da Rede Mulher Empreendedora, Erika, Ana e Katherine contaram suas experiências, deixando claro o preconceito que insiste em se fazer presente no dia a dia. No fundo do auditório, alguém levantou a mão e perguntou: “Como os clientes reagem quando veem que vocês são mulheres?”

Ana Paula logo se prontificou: “Eles acham que não vamos saber fazer!”
Erika completou: “Eles fazem duas perguntas: Elas tem competência? São bonitas?”

Rede Mulher Empreendedora a favor da igualdade

Em uma sociedade machista, onde a maioria dos cargos executivos de chefia são ocupados por homens, a discrepância salarial persiste. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), mulheres chegam a receber 25% a menos que um homem ocupando o mesmo cargo. A situação da mulher negra no mercado de trabalho é ainda mais alarmante: a diferença pode chegar a até 70%.

A questão da maternidade também é um indicativo de discriminação. Relatos de mulheres demitidas ou coagidas a voltarem ao trabalho antes do término da licença maternidade são comuns. É frequente empresas de recrutamento olharem as mulheres com desconfiança e questionarem se serão capazes de equilibrar a vida pessoal com a profissional. Devido à dificuldade da jornada dupla e por falta de apoio, mulheres muitas vezes se sentem obrigadas a optar entre progredir a carreira e assumir o cuidado integral do lar e dos filhos.

Considerando o contexto acima, empreender representa um caminho em busca do empoderamento e autonomia financeira para a mulher, não só a nível individual, mas também coletivo.

Com esse objetivo, a Rede Mulher Empreendedora surge, em 2010, como a primeira rede voltada apenas a mulheres que já pertencem ou querem fazer parte do ecossistema empreendedor. Busca ser um canal de conexão entre mulheres empreendedoras por meio de eventos, mentorias, projetos especiais, parcerias e troca de conhecimento. Em seis anos, estima-se que a rede conseguiu conectar e atingir cerca de **500 mil mulheres por todo o país.

* Segundo pesquisa da ONG Think Olga, responsável pela campanha Chega de Fiu Fiu, 99,6% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio.

** A RME realizou um levantamento de números de mulheres atingidas no Brasil: http://goo.gl/POn7ar

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